Torá

A Esperança para a Família Disfuncional

Por Dr. Eli Lizorkin-Girzhel (ler biografia)

Tempo de leitura: 7 min. Impacto: Eternidade.

Gênesis 35:16-22 contém um dos textos mais trágicos de toda a Bíblia. Ao final desta passagem, Jacó perdeu seu pai Isaque, enterrou sua amada esposa Raquel e suportou a traição de seu filho mais velho. No entanto, uma nova vida nasce (Benjamim), e uma surpreendente nova base para a esperança futura é lançada (a liderança de Judá em Israel é primeiramente predita). É um retrato duro e honesto de uma família em crise; no entanto, dentro dessa crise, descobrimos as sementes do plano redentor de Deus. Esta passagem é, em essência, a esperança para uma família disfuncional: que os propósitos de Deus não são frustrados pelo fracasso humano, mas frequentemente são avançados através dele.

A Morte de Raquel e o Nascimento de Benjamim

Enquanto a caravana de Jacó (agora Israel) viajava de Betel em direção a Berseba, onde Isaque habitava (Gn 35:27), Raquel, que já havia sofrido o suficiente em sua vida, entrou em trabalho de parto. Ela fora forçada a compartilhar seu marido com sua irmã e tivera três vezes menos filhos do que sua irmã mais velha, Lia. E agora, ela estava prestes a morrer ao dar à luz.

Embora a parteira lhe assegurasse que um novo filho lhe nascera, o que era muito significativo em seu contexto, ela o chamou de Ben-Oni, que significa “filho da minha dor” (embora a raiz também possa significar “vigor”, conferindo-lhe um duplo sentido comovente). Jacó, seu marido, o renomeou como Benjamim, tradicionalmente traduzido como “filho da mão direita”, isto é, um filho de honra ou boa fortuna. Essa dupla nomeação é em si uma teologia: o texto nos oferece tanto a dor quanto a esperança e se recusa a nos fazer escolher entre elas. A dor de Raquel é real e honrada; a esperança de Jacó não é uma negação dessa dor, mas uma declaração de que Deus pode trazer o bem a partir dela.

Com profunda tristeza, Jacó a enterrou não muito longe de Belém, a caminho de Efrata (Gn 35:16-22).

O profeta Jeremias mais tarde ouviria Raquel chorando por seus filhos no exílio. Lemos:

“Assim diz o SENHOR: Ouviu-se uma voz em Ramá, lamentação e choro amargo; Raquel chora por seus filhos e não quer ser consolada, porque já não existem.” (Jr 31:15)

Suas lágrimas se tornariam o símbolo judaico eterno da esperança redentora, tanto que o Evangelho de Mateus mais tarde conectaria o assassinato dos meninos pelo rei Herodes e seu esquadrão da morte ao luto de Raquel, ligando assim sua dor ao sofrimento de todas as mães ao longo da história da salvação (Mt 2:16-18). Para o leigo, esta lição é vital: suas lágrimas não são desperdiçadas. Elas são ouvidas no céu. Raquel nos ensina que o luto não é uma falha da fé, mas sim uma linguagem da fé. Deus não despreza nossa tristeza; Ele a recolhe.

A Caverna dos Patriarcas é um dos lugares mais sagrados para o povo judeu. Me’arat ha-Machpelah (מְעָרַת הַמַּכְפֵּלָה) significa “Caverna do Duplo”. Ela abriga três pares enterrados: Abraão e Sara, Isaque e Rebeca, e Jacó e Lia. O nome reflete tanto sua estrutura de câmaras duplas quanto esses três casais, pares duplicados enterrados juntos neste local sagrado de Hebrom. Uma das razões pelas quais Raquel é considerada no judaísmo como tendo um papel de poderosa intercessora nas orações, muito semelhante ao de Maria, a mãe de Jesus, no catolicismo e na ortodoxia cristã, é seu sofrimento avassalador em vida. De fato, entende-se que seu sofrimento continua pelo fato de ela ter sido enterrada sozinha, separada de um dos lugares mais sagrados para o povo judeu, a Caverna dos Patriarcas em Hebrom. Abraão, Sara, Isaque, Rebeca, Jacó e Lia estão todos enterrados ali em um só lugar, mas Raquel não. Isso não é negligência divina, mas uma providência estranha e dolorosa. Raquel é colocada na estrada para Belém precisamente para que possa ser ouvida, para que suas lágrimas se tornem a voz de todos os que sofrem. Sua exclusão da caverna torna-se sua inclusão no coração do povo que sofre de Deus.

O judaísmo conta até mesmo uma história imaginativa, embora instrutiva. Quando Abraão, Isaque, Jacó e Moisés se aproximaram de Deus para interceder por Israel enquanto era levado ao cativeiro babilônico, Deus rejeitou todos os pedidos. No entanto, Deus respondeu à súplica de Raquel, erguendo sua voz. Por que Raquel? Porque ela conhecia o sofrimento por dentro. Os patriarcas eram grandes, mas Raquel era quebrada. E Deus, em Sua misericórdia, inclina Seu ouvido mais prontamente aos quebrantados. Este é um profundo conforto para qualquer um que se sinta fragmentado demais para orar; sua própria quebrantação é sua credencial diante de Deus.

O Pecado de Rúben

Jacó viajou e armou sua tenda perto da Torre de Éder (Gn 35:21), mergulhado em tristeza, desânimo e exaustão. Então veio uma ofensa inimaginável de Rúben, seu primogênito, aquele que herdaria a porção dupla e lideraria a família. O texto afirma de forma direta:

“E aconteceu que, habitaram em Israel naquela terra, e Rúben foi e deitou-se com Bila, concubina de seu pai; e Israel o ouviu.” (Gn 35:22)

O que é digno de nota nesta e em muitas outras passagens é que a Bíblia, especialmente a Torá, não esconde as falhas morais de seus heróis. A lição sóbria é que o pecado não anula o plano redentor de Deus; em vez disso, Deus opera através de pessoas profundamente falhas. A fraqueza humana não quebra a aliança; ela é avançada por aqueles que, apesar de seus graves pecados, permanecem dentro do redil da fé. Esta é uma das primeiras coisas que ensino aos leigos: a Bíblia não é uma galeria de santos com auréolas. É uma sala de emergência. Se os heróis fossem perfeitos, não teríamos ponto de entrada. Mas, como eles são tão bagunçados quanto nós, podemos nos ver neles e ver que Deus não nos abandona.

O motivo de Rúben não é explicitado, mas seu ato provavelmente foi tanto político quanto lascivo. Na cultura do Antigo Oriente Próximo, tomar a concubina do pai era uma reivindicação direta à sucessão. Ele era filho de Lia, a esposa menos amada, enquanto Bila era a serva da amada Raquel. Ao se deitar com Bila, Rúben pode ter buscado desqualificá-la de uma elevação e preservar a primazia de Lia. No entanto, por baixo da política, podemos sentir uma ferida mais profunda. Rúben era inseguro. Ele via seu pai mimar José, o filho de Raquel. Seu ato foi uma tentativa desesperada e grosseira de poder, o grito de um filho: “Eu também importo!” Isso não o desculpa, mas o humaniza. A disfunção é uma doença familiar, transmitida de uma geração para a outra. O favoritismo de Jacó criou o ambiente para a traição de Rúben.

Jacó considerou o ato como uma grave violação de sua autoridade e honra. Ele despojou Rúben de seu papel de liderança. Em sua anti-bênção final, ele recordou a ofensa de forma contundente:

“Impetuoso como a água, não serás o mais excelente; porquanto subiste ao leito de teu pai; então o profanaste; ele subiu à minha cama.” (Gn 49:4)

Mas note: Rúben é despojado da preeminência, não do lugar. Ele permanece um filho, uma tribo e parte da aliança. Seu pecado tem consequências – liderança perdida, confiança quebrada –, mas não tem a palavra final sobre sua identidade na família de Deus. Esta é a graça implacável: podemos perder nosso cargo, mas não perdemos nosso lugar à mesa.

O restante do capítulo fornece, pela primeira vez em toda a Bíblia, uma lista fácil de seguir das mulheres de Jacó e seus filhos:

“E foram os filhos de Jacó doze. Os filhos de Lia: Rúben, o primogênito de Jacó, depois Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom. Os filhos de Raquel: José e Benjamim. Os filhos de Bila, serva de Raquel: Dã e Naftali. Os filhos de Zilpa, serva de Lia: Gade e Aser. Estes são os filhos de Jacó que lhe nasceram em Padã-Arã.” (Gn 35:23-26)

A Esperança de Judá

Se alguém lê este texto no contexto dos capítulos anteriores, uma conclusão torna-se inevitável. Uma vez que Rúben está desqualificado para liderar a família, e uma vez que os próximos na linha, Simeão e Levi, também estão desqualificados por seu papel no massacre descrito em Gênesis 34, o próximo na linha é ninguém menos que Judá. Isso prepara o cenário para a bênção profética de Jacó:

“O cetro não se apartará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos.” (Gn 49:10)

Esta é a esperança para uma família disfuncional: que quando um pilar desmorona, Deus levanta outro. E observe: Judá não é um gigante moral. Ele mais tarde proporá vender José como escravo e se deitará com sua nora, pensando que ela era uma prostituta (Gênesis 38). Deus não escolhe Judá porque ele é justo; Ele o escolhe porque é soberano. A linhagem do Messias não vem através do filho perfeito, mas através daquele que, apesar de suas falhas, permanece dentro da aliança. Esta é a esperança última para todo leigo sentado no banco da igreja: os propósitos de Deus não dependem da sua perfeição. Eles dependem da fidelidade Dele.

Cada filho tem uma história; cada um contribuirá de maneira diferente para a história final de Israel. Notavelmente, os filhos de Bila e Zilpa não são marginalizados, mas se tornam cidadãos de primeira classe na família de Jacó. Todos herdarão; todos serão pais de suas tribos. Muitos séculos depois, o apóstolo Paulo falaria do programa final de desmarginalização de Deus. Jesus uniria, por Seu Espírito, o povo de Israel e as nações, homens e mulheres, escravos e livres (Gl 3:28, Cl 3:11, 1 Co 12:13). Em Cristo, não apagamos as diferenças passadas, mas as transcendemos. Até mesmo os filhos do assassino Levi (Gn 34) não seriam excluídos da grandeza, prenunciando as traições de Pedro e a confiança de Cristo nele para apascentar Suas ovelhas (Jo 21:15-17). Este é o evangelho em miniatura: Deus toma os excluídos e os torna herdeiros. Ele toma o traidor e o faz pastor. Ninguém está além do alcance de Seu plano redentor.

Enterro de Isaque

O capítulo 35 termina retornando ao pai de Jacó, Isaque. O texto diz que seus filhos o enterraram, presumivelmente o outrora alienado Jacó e Esaú, agora unidos na dor, assim como Isaque e Ismael haviam feito por Abraão. Os irmãos alienados agora se unem plenamente na tristeza pela morte de seu pai idoso e menos que perfeito. A dor tem um poder estranho: pode fazer o que anos de discussão não puderam. Ela une os inimigos. Amolece corações endurecidos. A morte de um pai torna-se a ocasião para a reconciliação dos filhos. Mesmo na perda, Deus está tecendo fios de cura que ainda não podemos ver.

Mas este capítulo não é o fim da história de Jacó, pois José ainda está vivo no Egito, um escravo, desconhecido por seu pai. A aliança foi renovada, mas a família está fraturada. A morte de Raquel, o pecado de Rúben, a tentativa de assassinato de José e sua eventual venda – todos esses eventos ainda serão revelados na narrativa mais longa e provavelmente mais comovente do Livro de Gênesis, a história de José e seus irmãos. O capítulo termina não com um ponto final, mas com uma vírgula. A história não acabou. E a sua também não. A bagunça continua, mas também continua a mão divina que a guia.

Conclusão

A Torá se recusa a retocar seus heróis porque seu verdadeiro Herói é o Deus que permanece fiel quando a fidelidade humana desmorona. Raquel morre, mas Benjamim vive. Rúben cai, mas Judá se levanta. A tristeza gera esperança. A traição abre o caminho para a redenção.

Esta não é uma história sobre perfeição moral. É uma história sobre graça implacável, graça que nos persegue através do luto, através do fracasso e até mesmo através da sepultura. Deus não espera por pessoas perfeitas para construir Seu reino. Ele toma patriarcas enlutados, mães moribundas, filhos traiçoeiros e famílias fraturadas. Dos destroços deles, Ele tece uma aliança que não pode ser quebrada.

Se Deus pôde redimir esta família, Ele pode redimir a sua. Nossa quebrantação não define nosso futuro; ela é a própria matéria-prima da redenção. A única questão é se acreditaremos nisso e agiremos de acordo. E essa é a palavra pastoral final: crer não é apenas assentimento intelectual; é a coragem de continuar andando através do luto, através da traição, através do silêncio de Deus, confiando que a mesma Mão que guiou Jacó através de seus destroços está guiando você através dos seus. Não desista. O Deus de Raquel, o Deus de Judá, o Deus dos quebrantados e dos traídos, ainda está escrevendo histórias de redenção. E Ele ainda não terminou a sua.

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