Maria

Isaías Profetizou o Nascimento Virginal?

Descubra como Mateus entendeu a profecia de Isaías.

Imagine um texto sagrado provocando um debate acalorado que ecoa através dos milênios, dividindo duas grandes fés. Um único versículo da Bíblia Hebraica, Isaías 7:14, está no centro deste debate. Cristãos interpretam este versículo como uma promessa divina do nascimento virginal de Jesus (embora não apenas isso), que é uma pedra angular da fé da Nova Aliança; no entanto, estudiosos judeus contendem que ele foi mal compreendido e seu significado distorcido pela tradução e pelo tempo. Onde está a verdade? Vamos desvendar este mistério juntos. Você ficará agradavelmente surpreso.

O versículo em questão diz no hebraico original:

לָכֵן יִתֵּן אֲדֹנָי הוּא, לָכֶם–אוֹת: הִנֵּה הָעַלְמָה, הָרָה וְיֹלֶדֶת בֵּן, וְקָרָאת שְׁמוֹ, עִמָּנוּ אֵל

As Bíblias cristãs, como a NASB, traduzem isto como:

“Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel.” (Is 7:14, NASB)

Nas traduções judaicas, o significado é diferente:

“Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que a jovem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel.” (Is 7:14, JPS)

O Evangelho de Mateus conecta explicitamente este versículo ao nascimento de Jesus:

“Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor pelo profeta: ‘Eis que a virgem conceberá e dará à luz um Filho, e eles lhe chamarão Emanuel’, que traduzido significa: ‘Deus conosco’.” (Mt 1:22-23 — ACR)

A objeção a tal interpretação por Mateus é dupla. Primeiro, a profecia tinha a ver com um evento que deveria ocorrer 700-800 anos antes de Jesus. Segundo, Mateus usa a tradução errada, “virgem”, que deveria ser traduzida como “jovem”.

Primeira Objeção

A profecia foi dada ao rei Acaz de Judá (c. 735–715 a.C.) durante a Guerra Sírio-Efraimita, quando Judá enfrentava invasão da Síria (Aram) e de Israel (Efraim). Rezim de Aram e Peca de Israel atacaram Jerusalém, mas falharam (Isaías 7:1). O sinal destinava-se à crise imediata de Acaz, não 700–800 anos depois (era de Jesus). A criança (possivelmente o filho de Isaías, Maher-Shalal-Hash-Baz, em Isaías 8, ou Ezequias) simbolizava a libertação de Deus logo em seguida. Alguns intérpretes argumentam que a profecia alterna entre o tempo de Acaz e o tempo de Jesus porque o hebraico muda do “tu” singular (rei Acaz) para o “vós” plural (casa de Davi). Entre outras sugestões está a ideia de que Isaías previu um cumprimento duplo: Houve um cumprimento na vida do rei Acaz e depois outro na época de Cristo. Mas essas explicações refletem com precisão o entendimento de Mateus sobre a profecia judaica?

O Método Interpretativo de Mateus

Hoje, frequentemente vemos a profecia como mera predição, mas os antigos israelitas a viam de forma diferente: profetas eram mensageiros de Deus, entregando palavras divinas para abordar as circunstâncias imediatas de seu povo. Para ilustrar isso, considere como Mateus, num caso aparentemente não relacionado, conecta o retorno de Jesus do Egito às antigas palavras do profeta Oseias, revelando uma abordagem mais profunda e não preditiva da profecia.

“Ele permaneceu ali até a morte de Herodes; para que se cumprisse o que fora dito da parte do Senhor pelo profeta: ‘DO EGITO CHAMEI O MEU FILHO.’” (Mt 2:15 — ACR)

Podemos ver claramente que Oseias não estava predizendo o futuro, mas contemplando o passado. Através de Oseias, Deus falou sobre os filhos de Israel e os lembrou de como Ele os libertou do Egito no passado:

“Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho.” (Os 11:1 — ACR)

Oseias 11:1 (“Do Egito chamei o meu filho”) refere-se historicamente ao êxodo de Israel do Egito (não uma predição). Mateus o aplica tipologicamente à fuga de Jesus para o Egito, vendo Jesus como o “filho” definitivo paralelo a Israel. Esta é uma técnica comum do Novo Testamento (tipologia ou analogia).

Segunda Objeção

Abordemos agora uma objeção mais sutil — mas não menos significativa. Estudiosos judeus frequentemente contendem que a palavra traduzida como “virgem” em Isaías 7:14 não deve em circunstância alguma ser assim traduzida, pois seu significado é o mais geral “jovem”. Eles argumentam que se Isaías pretendesse especificar “virgem”, ele teria usado a palavra בְּתוּלָה (betulah) em vez de עַלְמָה (almah).

Na discussão restante, argumentarei que o hebraico bíblico usa três palavras principais, que podem significar essencialmente tanto “jovem” quanto “virgem”, dependendo do contexto e de outros fatores. Essas palavras são almahnaarah e betulah.

Almah (עַלְמָה) é primariamente “jovem” (em idade de casar), frequentemente implicando virgindade devido às normas culturais, mas não explicitamente. Esta é a palavra hebraica usada em Isaías 7:14.
Na’arah (נַעֲרָה) é geralmente definida como uma jovem do sexo feminino, tipicamente uma adolescente ou pré-adolescente, também sem referência explícita ao estado sexual, mas frequentemente presumida como virgem devido à sua idade.
Betulah (בְּתוּלָה) é geralmente entendida como uma jovem que é presumida virgem, mas geralmente requer qualificação (ela é uma virgem que “não conheceu homem”). Deuteronômio 22:13-21 fala de btulim (בְּתוּלִים) como “sinais de virgindade”.
Há um texto muito importante que precisamos considerar que menciona todas as três e as aplica a uma única pessoa — Rebeca. Lemos uma descrição de Rebeca, a futura esposa de Isaque, que é referida como uma jovem virgem: A jovem (נַעֲרָה) era muito bonita, virgem (בְּתוּלָ֕ה), e nenhum homem a havia conhecido (וְאִ֖ישׁ לֹ֣א יְדָעָ֑הּ). (Gênesis 24:16, NASB) Então o servo de Abraão testemunha o conteúdo de sua oração para identificar a esposa de Isaque, que na verdade se refere a Rebeca como almah (הָֽעַלְמָה֙). Lemos: “…eis que estou junto à fonte; e que a jovem/senhora solteira (הָֽעַלְמָה֙) que sair para tirar água…” (Gênesis 24:43, NASB) Aqui, num mesmo capítulo, vemos que Rebeca é referida por todas as três palavras mencionadas acima: na‘arahbetulah e almah! Assim como em Isaías 7:14, a jovem (almah) aqui é presumida como virgem.

A Antiga Bíblia Grega (LXX)

A Septuaginta (LXX), a tradução grega pré-cristã da Bíblia Hebraica, traduz a palavra hebraica almah (עַלְמָה) em Isaías 7:14 como parthenos (παρθένος), que tipicamente (embora nem sempre) significa “virgem” em grego. No entanto, a LXX também emprega parthenos de maneira um tanto flexível. Na maioria das vezes significa virgem, mas numa minoria de casos não significa. A mesma palavra, parthenos (παρθένος), é usada para traduzir betulah em Gênesis 24:16 e Joel 1:8; e almah em Gênesis 24:43. Isso indica que “parthenos” pode denotar uma jovem, mulher não casada, frequentemente presumida como virgem, de acordo com o contexto cultural. O uso de parthenos por Mateus ao citar Isaías 7:14 (Mateus 1:23) reflete esse uso mais amplo da LXX, apoiando a interpretação cristã de um nascimento virginal, embora não contradiga estritamente a gama de significados de almah. A escolha de parthenos na LXX, portanto, faz a ponte entre os contextos hebraico e grego, contribuindo para o significado teológico do versículo no cristianismo primitivo.

Por que não no Evangelho mais antigo?

Entre os evangelhos sinóticos, o Evangelho de Marcos é amplamente considerado o mais antigo escrito e é tradicionalmente atribuído a João Marcos, que registrou o testemunho do apóstolo Pedro. O nascimento virginal não é mencionado neste evangelho mais antigo (Marcos 1:1–11, que começa com o batismo e ministério de Jesus). É possível que quando Marcos foi escrito, o conhecimento deste detalhe íntimo ainda não fosse amplamente conhecido. O apóstolo Paulo, cujos escritos estão listados em nossas Bíblias como seguindo os evangelhos, mas cronologicamente os precedem de acordo com a provável data de composição, não menciona explicitamente o nascimento virginal em suas epístolas, concentrando-se antes na morte, ressurreição e filiação divina de Jesus, com frases como “nascido de mulher” em Gálatas 4:4 e “nascido da descendência de Davi” em Romanos 1:3-4 sendo gerais e não indicando nem excluindo um nascimento virginal. Seu silêncio sugere que ele pode não ter conhecimento do nascimento virginal, considerava-o irrelevante para sua teologia, ou o assumia como conhecido, deixando incerto se ele sabia do nascimento virginal como posteriormente descrito nos Evangelhos. Os Evangelhos de Lucas e Mateus sozinhos fornecem forte testemunho do nascimento virginal (Lucas 1:26–38; Mt 1:18–25). A explicação mais lógica é que o autor de Lucas, através de pesquisa cuidadosa dos eventos da vida de Jesus (Lucas 1:1–4), provavelmente entrevistou ou baseou-se em fontes próximas à mãe de Jesus, Maria, ou na própria Maria. Esta reconstrução explica por que o Evangelho de Lucas contém o material mais extenso relacionado a Maria, incluindo a Anunciação (Lucas 1:26–38), sua visita a Isabel (Lucas 1:39–56) e o Magnificat (Lucas 1:46–55), ausentes em outros evangelhos.

Conclusão

Para responder à pergunta original colocada por este ensaio — Isaías profetizou o nascimento virginal? — a resposta é sim e não. Isaías procurou predizer o futuro de maneira oracular quando falou com Acaz. Um sinal cumprido 700–800 anos depois não teria sido relevante, pois Acaz precisava de ajuda com sua crise contemporânea. Mateus quis dizer que a profecia de Isaías foi preenchida com novo significado à luz dos eventos de Jesus e, nesse sentido — cumprida.

Longe de errar ou confiar numa tradução defeituosa, o autor do Evangelho de Mateus usou deliberadamente a tradução da Septuaginta de almah (עַלְמָה) como parthenos (παρθένος), um termo grego que na maioria das vezes conota virgindade, especialmente em contextos culturais onde jovens mulheres não casadas o fazem. Ele e sua comunidade cristã judaica/messiânica judaica primitiva estavam de acordo com a Septuaginta (LXX) pré-cristã de que Isaías 7:14 deveria ser melhor traduzido como: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe chamará Emanuel.”

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