Por que Moisés Recusou o Anjo
Há uma tensão notável escondida na história da jornada de Israel desde o Sinai. Deus promete trazer Seu povo à terra que Ele preparou para eles. Ele os protegerá, derrotará seus inimigos e fornecerá orientação sobrenatural. No entanto, Moisés acaba dizendo, em efeito: “Isso não é suficiente”.
O que poderia estar faltando?
A resposta está em uma conexão fascinante entre Êx 23, Êx 33 e Êx 34. Deus havia prometido enviar um anjo adiante de Israel, mas com um aviso assustador: “Não te rebeles contra ele, porque ele não perdoará a tua transgressão” (Êx 23:21). Após o terrível pecado de Israel com o bezerro de ouro, Moisés entendeu o problema mais claramente do que nunca.
Israel precisava de mais do que orientação. Eles precisavam de perdão.
E assim Moisés fez um pedido surpreendente. Ele pediu que o próprio YHWH fosse com eles.
Um anjo que não perdoará
Antes mesmo do bezerro de ouro aparecer, Deus disse a Israel:
“Eis que envio um anjo diante de ti, para guardar-te no caminho e para levar-te ao lugar que preparei” (Êx 23:20).
A promessa parece maravilhosamente tranquilizadora. No entanto, o versículo seguinte muda a atmosfera:
“Atenta bem para ele e ouve a sua voz; não te rebeles contra ele, porque ele não perdoará a vossa transgressão, porque nele está o meu nome” (Êx 23:21).
O hebraico é especialmente forte: לֹא יִשָּׂא לְפִשְׁעֲכֶם (lo yissa lefishakhem), literalmente, “ele não carregará/perdoará a vossa transgressão”. O texto não significa necessariamente que este anjo é metafisicamente incapaz de perdoar. Ele diz a Israel que ele não perdoará a sua rebelião.
Essa distinção é importante.
O anjo carrega extraordinária autoridade divina. Deus chega a dizer: “Meu nome está nele”. Israel deve obedecer à sua voz porque a resistência a ele equivale à resistência contra Deus.
Há apenas um problema. O que acontece quando o povo inevitavelmente se rebela?
Êxodo não nos deixa perguntando por muito tempo.
O bezerro de ouro muda tudo
Enquanto Moisés está no Sinai, Israel faz o bezerro de ouro. O povo que ouvira a voz de Deus, testemunhara as pragas, atravessara o mar e entrara em aliança com YHWH desce ao pecado com uma velocidade chocante.
Deus os chama de עַם קְשֵׁה־עֹרֶף (am qesheh-oref), um “povo de dura cerviz” (Êx 32:9).
Após Moisés interceder e Israel escapar da destruição, Deus lhes diz para continuarem em direção à Terra Prometida. Ele enviará até um anjo adiante deles.
Mas algo mudou.
Deus diz:
“Eu não subirei no meio de ti, para não te consumir no caminho, porque és povo de dura cerviz” (Êx 33:3).
Isso é importante. A ausência de Deus não é simplesmente um castigo. Sua santa presença é, ela mesma, perigosa para o Israel pecador.
Israel aparentemente pode ter a terra, vitória, proteção e orientação angelical sem que Deus habite pessoalmente em seu meio.
Moisés recusa a oferta.
“Se a tua presença não for conosco, não nos faças subir daqui” (Êx 33:15).
Para Moisés, a Terra Prometida sem a presença de Deus já não é verdadeiramente a Terra Prometida.
“Mostra-me os teus caminhos”
O pedido de Moisés não aparece repentinamente. Pouco antes, ele ora:
“Rogo-te que me mostres o teu caminho, para que eu te conheça” (Êx 33:13).
Ele não quer apenas que Deus resolva o problema de Israel. Ele quer entender o Deus com quem está lidando.
Deus responde: “A minha presença irá contigo” (Êx 33:14). O hebraico usa פָּנַי (panai), literalmente “Meu rosto/presença”. Moisés então pede algo ainda maior: “Rogo-te que me mostres a tua glória” (Êx 33:18).
Deus esconde Moisés na fenda da rocha e permite a ele um encontro extraordinário. No entanto, o que Moisés recebe é mais do que uma manifestação visual. Deus revela Seu caráter.
“O SENHOR, o SENHOR Deus, misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência e verdade” (Êx 34:6).
Então vem a frase crucial: Ele é um Deus “que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado” (Êx 34:7).
Observe o que aconteceu.
Em Êx 23, o anjo “não perdoará a vossa transgressão”.
Em Êx 34, YHWH declara que Ele “perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado”.
Moisés encontrou o coração de seu argumento.
Porque são de dura cerviz
Moisés imediatamente se inclina ao chão e responde:
Obrigado a todos os meus amigos por suas orações, encorajamento e apoio!
“Se agora achei favor aos teus olhos, ó Senhor, rogo-te que o Senhor vá no meio de nós, porque é povo de dura cerviz; e perdoa a nossa iniquidade e o nosso pecado, e toma-nos por tua herança” (Êx 34:9).
Esta é uma das orações mais ousadas da Torá.
Poderíamos esperar que Moisés dissesse: “Por favor, vai conosco, embora sejamos de dura cerviz”.
Algumas traduções compreensivelmente o traduzem assim. No entanto, a partícula hebraica כִּי (ki) permite naturalmente o sentido de “pois” ou “porque”. A redação, portanto, permite um pensamento surpreendente:
Vai conosco precisamente porque somos de dura cerviz.
Moisés toma a própria característica que ameaça a sobrevivência de Israel e a transforma em um argumento pela presença de Deus.
Ele está dizendo que o pecado não importa. A declaração de Deus em Êx 34:6-7 mantém a misericórdia e a justiça juntas. O mesmo Deus que perdoa também se recusa a tratar a culpa como algo sem sentido.
O argumento de Moisés é mais sutil.
“Tu sabes como é esse povo. Eu sei como ele é. Se eles vão sobreviver a esta jornada, eles precisam da presença Daquele que é misericordioso, piedoso, paciente e perdoador”.
A fraqueza de Israel se torna a razão pela qual eles não podem viver sem YHWH.
A coragem de um intercessor
Isso nos ajuda a entender por que Moisés ousa falar com Deus tão ousadamente.
Ele já fez isso antes.
Quando Deus ameaça Israel após o bezerro de ouro, Moisés se coloca entre o juízo divino e o povo. Ele apela às promessas de Deus a Abraão, Isaque e Jacó (Êx 32:11-14). Então ele vai ainda mais longe:
“Se tu perdoares o pecado deles… mas se não, peço-te que me risques do teu livro que escreveste” (Êx 32:32).
Esta é uma intercessão com enorme custo pessoal.
Moisés se assemelha a Abraão diante de Deus em favor de Sodoma: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18:25). Nenhum dos dois trata Deus com leviandade. Sua ousadia cresce a partir do conhecimento que têm Dele.
A fé bíblica às vezes parece surpreendentemente argumentativa.
Abraão suplica. Jacó luta. Moisés se recusa a deixar Israel continuar sem Deus.
A fé nem sempre é submissão silenciosa. Às vezes, a fé genuína se apega ao que Deus revelou sobre Si mesmo e ousa pedir-Lhe que aja de acordo com Seu próprio caráter.
A maior necessidade de Israel
Moisés entendeu algo que o próprio Israel estava apenas começando a aprender.
Seu maior perigo não era o Egito, nações hostis, fome, sede ou o deserto.
Seu maior perigo eram eles mesmos.
De que adiantaria a orientação sobrenatural se o pecado deles os destruísse ao longo do caminho? De que adiantaria alcançar Canaã se eles chegassem sem a presença do Deus que os fizera Seu povo?
Israel precisava de um Deus que pudesse habitar entre os pecadores sem abandonar Sua santidade, que pudesse julgar o mal sem abandonar Sua aliança, e que pudesse perdoar pessoas que repetidamente falhavam com Ele.
Este é precisamente o Deus que Moisés encontra na fenda da rocha.
Este encontro também dá ao chamado de Israel como “reino de sacerdotes” (Êx 19:6) uma dimensão mais profunda. Israel exibiria o caráter de Deus às nações tornando-se uma nação de pessoas que às vezes falhavam. Suas Escrituras tornam tal interpretação impossível.
Eles testemunhariam um Deus que permanece fiel e disciplina Seu povo; Ele perdoa o pecado deles e continua Seus propósitos de aliança através da graça.
O que Deus faria com todo esse perdão?
Uma história judaica captura algo da audácia de Moisés.
Um rabino que amava profundamente seu povo certa vez orou:
“HaShem, Tu és justo, enquanto nós tropeçamos continuamente. No entanto, Tua misericórdia é grande. Então façamos um acordo. Nós Te daremos todos os nossos pecados, e Tu nos darás todo o Teu perdão.”
Então, como se antecipasse a objeção de Deus, ele acrescentou:
“Mas HaShem, pense cuidadosamente antes de recusar. Se não tivéssemos pecados, o que Tu farias com todo esse perdão?”
Há humor aqui, é claro, mas também teologia séria.
Isso não torna o pecado aceitável. Torna a graça surpreendente.
Moisés não pede a Deus que acompanhe Israel porque eles merecem Sua presença. Ele pede a Deus que os acompanhe porque eles desesperadamente precisam dela. Suas cervizes duras não são motivos para orgulho. São motivos para dependência.
Essa pode ser a lição mais profunda da história. O povo de Deus sobreviveu porque precisou de muito perdão. Eles sobreviveram porque o Deus que andou com eles se revelou como “misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em beneficência”.
O deserto requer mais do que um anjo que mostre o caminho.
Requer a presença de um Deus que perdoa.
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