Torá

Por que o SENHOR estava com José?

Por Dr. Eli Lizorkin-Girzhel (ler biografia)

Tempo de leitura: 7 min. Impacto: Eternidade.

Um número imensurável de sermões já foi pregado e aulas de escola dominical foram ensinadas sobre o tema de José e seu sofrimento no Egito. Tudo começou com sua rápida ascensão a uma posição de grande autoridade na casa de Potifar, um oficial de alto escalão responsável pela guarda do faraó. Isso foi seguido por sua queda dramática dessa alta posição por causa da acusação falsa de tentativa de estupro pela esposa do senhor egípcio de José. O marido acredita em sua esposa (ou pelo menos parece fazê-lo). José é aprisionado.

Todo pastor e professor da Bíblia enfatiza corretamente o que o texto torna óbvio: o Senhor estava com José em cada ponto de sua provação. Isso é absolutamente verdadeiro. Mas nunca ouvi uma explicação do porquê. Por que o Senhor estava com José? Por que tudo o que José tocava parecia prosperar? Por que todos confiavam nele tão rapidamente? E por que todo esse sucesso e o enorme poder da presença de Deus não lhe garantiram uma vida mais pacífica e alegre?

Gênesis 39 é emoldurado por descrições estreitamente correspondentes do sucesso de José na casa de Potifar e na prisão. O narrador diz que o SENHOR estava com José quatro vezes (vv. 2, 3, 21, 23). Isso é altamente incomum. O narrador repete a frase quatro vezes para incentivar os leitores a interpretar a história de José através de uma lente teológica: a presença da aliança de Deus na vida dos filhos de Israel.

A estrutura literária pode ser representada visualmente assim:

Casa de Potifar: O Senhor estava com José, e ele tornou-se bem-sucedido (v. 2). Potifar viu que o Senhor estava com ele e fazia prosperar tudo o que ele fazia (v. 3). Potifar colocou José como responsável por tudo (v. 4). A bênção do Senhor repousou sobre tudo o que Potifar possuía por causa de José (v. 5).

José Mantém a Aliança: Desde o momento em que a esposa de Potifar notou a aparência excepcional de José (v. 6), ela tentou repetidamente seduzi-lo (vv. 7-10). José recusou, permanecendo leal tanto a Deus quanto ao seu senhor (vv. 8-9). Depois que ele fugiu dos avanços dela (vv. 11-12), ela o acusou falsamente de tentativa de agressão (vv. 13-18). Acreditando em sua acusação, Potifar ficou enfurecido e mandou prender José, apesar de sua inocência (vv. 19-20).

A recusa de José à esposa de Potifar foi muito mais do que um ato de integridade pessoal; foi um ato de fidelidade à aliança. Suas palavras: “Como poderia eu fazer essa grande maldade e pecar contra Deus?” (Gn 39:9), revelam que ele entendia o adultério não meramente como uma falha moral contra seu senhor, mas como uma ofensa grave contra o Deus da aliança. No centro do capítulo está a lealdade inabalável de José ao Senhor, revelando a fidelidade à aliança que caracterizava o herdeiro das promessas de Deus. A estrutura literária coloca deliberadamente a fidelidade à aliança de José no centro do capítulo, emoldurada em ambos os lados pela fidelidade da aliança de Deus para com ele.

Prisão: O Senhor estava com José e lhe deu favor aos olhos do carcereiro (v. 21). O carcereiro colocou José como responsável por todos os outros prisioneiros (v. 22). A presença do Senhor fez com que o carcereiro confiasse completamente em José. O Senhor fez José prosperar em tudo o que fazia (v. 23).

O capítulo começa com a fidelidade da aliança de Deus para com José, atinge seu clímax na fidelidade da aliança de José para com Deus e conclui com a fidelidade da aliança de Deus mais uma vez.

José como o Verdadeiro Filho de Abraão, Isaque e Jacó

Neste capítulo, vemos ambos os lados da fidelidade à aliança em ação. José prova-se completamente fiel ao Senhor, e isso é demonstrado em sua fidelidade para com Potifar, enquanto, dia após dia, ele recusa os avanços da esposa de Potifar. Mas também vemos que o Senhor age de acordo com Suas responsabilidades de aliança e permanece fiel à aliança que fez com o pai, avô e bisavô de José.

Abraão

Ao seu bisavô Abraão, o Senhor havia dito certa vez:

“E far-te-ei uma grande nação,
E abençoar-te-ei,
E engrandecerei o teu nome;
E tu serás uma bênção…
E em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gn 12:2-3)

Aqui encontramos a promessa clara de que, por meio da família de Abraão, todas as famílias da terra receberiam bênçãos. Embora a linguagem ainda não seja explícita, a promessa de bênção já está incorporada à aliança abraâmica (“Farei grande o teu nome”). Mais tarde, Abimeleque reconhece: “Deus é contigo em tudo o que fazes” (Gn 21:22). Abraão torna-se extremamente rico, e seu servo testifica: “O Senhor tem abençoado muito o meu senhor” (Gn 24:35).

Isaque

O Senhor repetiu Suas promessas ao filho de Abraão, Isaque. Lemos: “Peregrina nesta terra, e serei contigo e te abençoarei” (Gn 26:3). “Eu sou o Deus de teu pai Abraão; não temas, porque estou contigo” (Gn 26:24). Isaque semeou, colheu cem por um, e “o Senhor o abençoou”. Ele tornou-se cada vez mais rico, até ser muito próspero (Gn 26:12-13). Até os filisteus confessaram: “Vimos claramente que o Senhor é contigo” (Gn 26:28). Seu sucesso era tão óbvio que até os estrangeiros reconheciam sua fonte divina.

Jacó

A linguagem da presença de Deus é talvez ainda mais evidente no trato de Deus com Jacó. A Jacó Deus diz: “Eis que estou contigo e te guardarei por onde quer que fores” (Gn 28:15). “Volta… e estarei contigo” (Gn 31:3). O próprio Jacó testifica: “O Deus de meu pai tem estado comigo” (Gn 31:5). Mesmo quando Jacó desce ao Egito, Deus novamente promete: “Não temas… descerei contigo” (Gn 46:3-4). Labão admite que o Senhor o abençoou por causa de Jacó (Gn 30:27-30).

José: O Mesmo Padrão da Aliança

Contra esse pano de fundo, Gênesis 39 torna-se inequivocamente claro: José é um verdadeiro filho de Israel, o herdeiro das promessas de Deus a Abraão, Isaque e Jacó. As próprias promessas que Deus deu a seus antepassados tornam-se realidade em sua própria vida. O mesmo padrão divino se desenrola diante de nossos olhos. A declaração repetida de que “o SENHOR estava com José” (Gn 39:2, 3, 21, 23) ecoa deliberadamente as promessas de Deus a Isaque e Jacó: “Estarei contigo” (Gn 26:3, 24; 28:15; 31:3). Da mesma forma, o Senhor fazendo José prosperar em tudo o que fazia (Gn 39:3, 23) reflete a mesma bênção da aliança que marcou as vidas de Abraão (Gn 21:22; 24:35), Isaque (Gn 26:12-13) e Jacó (Gn 30:27-30; 31:7-12; 32:12). Ainda mais notavelmente, a bênção que flui através de José para a casa de Potifar (Gn 39:5) cumpre a promessa de Deus de que, por meio de Abraão, todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gn 12:2-3). Assim como Abimeleque foi beneficiado por causa de Abraão e Labão prosperou por causa de Jacó, toda a casa de Potifar experimentou a bênção do Senhor por causa de José. O sucesso de José, portanto, não foi um milagre isolado nem simplesmente a recompensa de sua integridade pessoal. Foi a continuação da fidelidade da aliança de Deus de uma geração para a outra. José é, portanto, mais do que um exemplo moral a ser imitado; ele é o herdeiro da aliança através do qual as promessas de Deus continuam a avançar, prenunciando o maior Filho da Aliança que traria essas promessas à sua plena realização.

Jesus, o Último Israelita

O padrão da aliança atinge seu cumprimento final em Jesus, o Messias. Como Abraão, Isaque, Jacó e José, Jesus viveu em perfeita comunhão com o Pai. “Aquele que me enviou está comigo” (Jo 8:29). Como José, Ele permaneceu fiel sob tentação (Mt 4:1-11), foi falsamente acusado (Mt 26:59-61), sofreu embora inocente (1 Pe 2:22-23) e, através de Seu sofrimento, tornou-se a fonte de bênção para as nações. No entanto, Jesus faz muito mais do que continuar a aliança abraâmica. Ele a leva ao seu objetivo pretendido. Nele, a promessa de Deus de que “todas as famílias da terra serão abençoadas” (Gn 12:3) é cumprida à medida que o perdão, a presença de Deus e a vida eterna são estendidos a todos os que creem (Gl 3:8, 14, 16, 29).

Conclusão

A história de José transforma a maneira como pensamos sobre a bênção de Deus. A presença do Senhor não poupou José da traição, escravidão, acusação falsa ou prisão. Em vez disso, ela garantiu que nenhuma dessas dificuldades pudesse separá-lo da fidelidade da aliança de Deus.

A prosperidade de José nunca foi medida apenas pelo conforto ou sucesso, mas pela realidade inabalável de que o Senhor estava com ele (Gn 39:2, 3, 21, 23). O mesmo padrão percorre todo o Gênesis. Abraão, Isaque e Jacó suportaram sofrimento, incerteza e perda, mas a aliança de Deus nunca lhes falhou. Os israelitas, recém-libertos do Egito, precisavam dessa garantia enquanto enfrentavam um futuro incerto. Nós precisamos dela igualmente hoje. Nossas circunstâncias não definem a fidelidade de Deus; Suas promessas é que a definem. Em Jesus, o Messias, o verdadeiro israelita e portador final da aliança, vemos esse padrão levado ao seu glorioso cumprimento. A cruz veio antes da ressurreição, o sofrimento antes da glória. Portanto, quando andamos por vales escuros, não precisamos temer. O Deus que guarda a aliança, que estava com José, ainda está conosco. Sua presença é nossa maior prosperidade, Sua fidelidade nossa esperança inabalável, até que cada promessa encontre seu perfeito cumprimento.

“Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?… Mas em todas essas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Rm 8:35-37).

José conheceu essa verdade muito antes de Paulo escrever essas palavras em meados do primeiro século.

O Senhor está com você. Nunca se esqueça disso.

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