O que todo cristão deve saber: Por que «amaldiçoado» não é bem a expressão correta
Por Dr. Eli Lizorkin-Girzhel (ler biografia)
Tempo de leitura: 7 min. Impacto: Eternidade.
Génesis 12:3 está no cerne da aliança abraâmica:
«Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei quem te amaldiçoar (וַאֲבָרְכָה, מְבָרְכֶיךָ, וּמְקַלֶּלְךָ, אָאֹר, va’avarakhah mevarakheikha, u-meqallelkha a’or); e todas as nações da terra serão abençoadas por meio de ti.»
Lido em inglês, o versículo parece simétrico: bênção por bênção, maldição por maldição, uma simples troca de olho por olho. Mas o hebraico subjacente conta uma história mais matizada, que muitas traduções inglesas simplificam ao utilizar a única palavra inglesa «curse» para dois verbos hebraicos diferentes.
A primeira palavra para «maldição», aplicada à ação humana, é «qalal» (קלל). Na sua essência, o verbo não denota principalmente a pronúncia formal de uma maldição. Significa tratar como algo leve, trivial ou desprezível; desdenhar, menosprezar ou ignorar. É a mesma raiz utilizada noutros contextos para insultar ou amaldiçoar os próprios pais. Descreve uma atitude de desprezo mais do que a pronúncia formal de uma maldição.
Curiosamente, o verbo «qalal» pertence literalmente ao campo semântico oposto de «kabed» («honrar» ou «considerar importante»). «Qalal» alguém é tratá-lo como insignificante, leviano ou indigno de honra. Embora «qalal» possa, por vezes, significar «maldição», dependendo do contexto, o seu sentido básico é tratar alguém como insignificante, desprezível ou de pouca consideração. Essa nuance é provavelmente intencional neste caso.
A segunda palavra, que descreve a resposta de Deus, é «arar» (ארר), um termo muito mais pesado. Esta é a palavra utilizada para a maldição pronunciada sobre a serpente e sobre a terra após a Queda (Génesis 3:14, 17) e, mais tarde, para as maldições formais da aliança em Deuteronómio. «Arar» é o verbo hebraico padrão para submeter alguém a uma maldição divina ou a um julgamento judicial.
Assim, embora o versículo fale de «bênção por bênção», não está a dizer «maldição por maldição». Está a dizer que quem tratar Abraão com desdém ou o desprezar enfrentará, em troca, um julgamento severo. A desproporção é o ponto-chave.
Há uma segunda camada fácil de passar despercebida na tradução: o número. «Aqueles que te abençoarem» está no plural, enquanto «aquele que te desonrar» está no singular. Muitos intérpretes têm sugerido que esta assimetria retrata subtilmente a bênção como a atitude esperada das nações e aquele que desonra como a exceção isolada. Quer essa implicação seja intencional ou não, a mudança gramatical é inconfundível e contribui para a textura literária do versículo.
Curiosamente, ambos os verbos que descrevem a resposta humana são particípios, retratando disposições contínuas em vez de atos isolados. O contraste está entre aqueles que habitualmente abençoam Abraão e aquele que, caracteristicamente, o trata com desprezo.
Em conjunto, estas nuances alteram o peso emocional e teológico do versículo. Não se trata, em primeiro lugar, de um aviso sobre retaliação simétrica: «amaldiçoa-me e eu amaldiçoar-te-ei de volta». É mais próximo disto: o desprezo, mesmo na sua forma mais leve e comum, acarreta uma consequência desproporcionalmente grave.
A tradução inglesa «maldição» tanto para «qalal» como para «arar» obscurece essa assimetria, fazendo com que o versículo pareça uma reciprocidade imparcial, quando o hebraico apresenta a bênção como a expectativa geral, enquanto o julgamento surge como a resposta excecional, mas severa.
As traduções não estão erradas ao usar «maldição» para ambos; não existe uma única palavra em inglês que capte a conotação de desprezo de «qalal» em comparação com a força judicial de «orar». Mas os leitores que se baseiam apenas no inglês perdem uma subtileza embutida no texto original: este é um versículo que trata mais da gravidade do desprezo do que de maldições do tipo «olho por olho».
Nem todas as traduções para o inglês nivelam esta distinção da mesma forma. A NIV é um dos exemplos mais claros de como ambos os verbos hebraicos são reduzidos à mesma palavra em inglês, traduzindo o versículo como «quem te amaldiçoar, eu amaldiçoarei», o que apaga completamente a diferença entre «qalal» e «arar ».
A ESV, em contrapartida, aproxima-se notavelmente de preservar a nuance. Traduz o versículo da seguinte forma: «Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aquele que te desonrar, e em ti serão abençoadas todas as famílias da terra.» Ao traduzir qalal como «desonra» em vez de «amaldiçoa», a ESV mantém o significado mais leve, baseado no desprezo, do ato humano distinto do peso mais grave e judicial de arar, que reserva exclusivamente para a resposta de Deus. Essa única escolha de palavra, «desonra» em vez de «amaldiçoa», restaura grande parte da assimetria literária e teológica que o texto hebraico foi concebido para transmitir.
O hebraico de Génesis 12:3 lembra-nos que Deus não encara o desprezo da mesma forma que muitas vezes o fazemos. Nós menosprezamos o ridículo, o desdém e a falta de respeito casual como ofensas menores, mas o Senhor pondera-as de forma diferente. Tratar levianamente quem é portador da Sua aliança é tratar levianamente os Seus próprios propósitos. É por isso que o ato humano é descrito com o termo relativamente brando «qalal», enquanto a resposta de Deus é expressa com o termo muito mais pesado «arar». O desequilíbrio é intencional. Não magnifica a importância humana, mas sim o compromisso divino para com as Suas promessas da aliança. Ao mesmo tempo, o versículo começa e termina com bênção. A bênção, e não o julgamento, é a principal intenção de Deus para as nações. Através de Abraão e, em última instância, através do Messias de Israel, todas as famílias da terra são convidadas a participar nessa bênção. A advertência permanece real, mas serve ao propósito maior de proteger o canal através do qual a graça redentora de Deus um dia alcançaria o mundo inteiro.
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